BLOG DO MÁRIO ADOLFO
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Uma noite de trevas


Eu bem que falei para Hermengarda Junqueira, Elaine Ramos e Elton Pio de Souza que assistiam à apresentação do Caprichoso ao meu lado, naquele 29 de junho de 1991, primeira noite do 26º Festival Folclórico de Parintins.

— Eu não gosto quando o Caprichoso usa essas carrancas, esses anjos das trevas e carrega no preto em suas fantasias... fica parecendo coisa do capeta.

De fato, apesar do enredo daquele ano ser “Cultura Cabocla”, o Caprichoso já manifestava aquele estilo ousado, que às vezes o empurrava para lado lúgubre. Quem não lembra daquelas arranhas-caranguejeiras escalando uma teia? Ou do morcego gigante que arrastou um caboclo para as alturas? Ou o dia em que Jackeline, do boi Garantido, despencou de uma altura de mais de 30 metros?

Naquele ano, as figuras satânicas davam um toque de sagrado profano ao ritual indígena apresentado pelo bumbá. O ambiente estava carregado e eu cada vez mais achava aquilo parecido com um ritual de magia negra. Fazia uma noite estrelada e a lua parecia até que havia sido desenhada com um compasso, de tão redonda. Mas de repente, nuvens negras começaram a se formar, escurecendo o céu.

Passava das 2 horas de sábado, quando um primeiro relâmpago riscou o espaço e clareou a ilha, sendo seguido pelo estrondo de um trovão. Um vento frio começou a soprar. Primeiro suavemente, depois mais forte, como se estivesse abrindo uma cortina invisível para a entrada do forte toró que começou a desabafar. A batida cadenciada da Marujada completava a cena do estranho ritual. Como aquela do filme King Kong, em que Jessica Lange é sacrificada para satisfazer o macacão tarada.

Em segundos, o bumbódromo era varrido por um vendaval 

Foi tudo muito rápido. Em segundos, o bumbódromo era varrido por um vendaval que não deixou nada em pé. Nem mesmo o cacete dos Korubo. Sem sabermos para onde correr – naquela época não havia camarote e quase todos os jornalistas vips assistiam à festa na lateral da arena –, levantamos a ponta uma lona que cobria a aparelhagem de som e nos abrigamos debaixo. À nossa frente, como se fosse uma fita de vídeo adiantada às pressas, voavam cocares, capacetes, tiaras, estandartes, braçadeiras, lanças, portais, chapéus, miçangas, peças de fantasia e tudo que o vento pudesse arrastar.

— Mário, corre lá meu filho, isso é a grande matéria! – alertou Hermengarda. Seu faro jornalístico estava certo. Eu é que estava com frio.

Mesmo assim, em nome de uma grande reportagem, saí do conforto da lona e encarei a chuva. O aguaceiro era enorme, mas não precisava muita visibilidade para entender que ali a imagem diria muito mais do que mil palavras. Mas na hora da foto, cadê o Carlos Dias, o fotógrafo que trabalhava comigo na cobertura? Fui informado por um colega que o Carlão havia saído para ir atrás de um saco plástico a fim de cobrir seu equipamento, já que iria trabalhar na chuva. A sorte é que mesmo sendo uma profissional de texto, a colunista Elaine Ramos nunca se separou de seu equipamento fotográfico.

— Vou nessa, meu bem, meu bem! – gritou a colunista, pegando a sua Nikon e entrando na chuva. Enquanto fantasia e alegorias voavam, os cantadores de toadas, ajudados pela galera tentavam salvar a apresentação na base da raça e do gogó. Muitos brincantes se abraçavam, chorando ao verem o trabalho de tantas noites de sono sendo destruído em tão pouco tempo. Enquanto eu tentava registrar tudo na memória, já que seria impossível escrever debaixo d´água. Elaine amassava o click e não perdia um detalhe.

— Esse boi de vocês me deixa molhadinha!... – ironizava a sacana, que era Garantido até debaixo d’água.

Elaine Ramos e Hermengarda Junqueira

Para agravar ainda mais a noite trágica do Caprichoso, a luz e o som do bumbódromo foram desligados. Era o caos total. Mesmo assim a galera tentava segurar o espetáculo, cantando a toada de Carlinhos Paulain: “Minha vida soa como a marujada/ sou o suor que balança esse povo/ no mês de junho tocando o tambor/ batendo palminhas renasce de novo/ ninguém gosta mais desse boi do que eu/ ninguém gosta mais desse boi do que eu/ ninguém gosta mais desse boi do que eu!...

Chorando, o pessoal de apoio amontoava no meio da quadra os adereços destruídos pelo temporal. O ritual triste era executado por alguns brincantes com os rostos cobertos de lágrimas. Alguns se abraçavam, chorando. Outros reagiam de forma diferente, bailando ao ritmo da toada e cantando ainda mais alto para tentar segurar o espetáculo e a ausência do som. Mas era tarefa quase impossível. Para manifestar sua solidariedade, o público invadiu a arena do bumbódromo e dançou junto com os brincantes.

Muita gente, que nada tinha a ver com Caprichoso, chorava. Até mesmo alguns jornalistas não seguraram a  emoção. Quando a luz e o som retornaram, os jurados já haviam se retirado das cabines e a apresentação do Caprichoso praticamente havia acabado. Não só a apresentação, mas talvez o boi inteiro.

O Festival Folclórico de Parintins virava, naquela madrugada, uma das páginas mais amargas de sua história.

A toada mais triste de Arlindo Júnior

A cena mais comovente da sucessão de episódios tristes marcaram aquele dia 29 de junho de 1991, a primeira noite de apresentação do Caprichoso no 26º Festival Folclórico de Parintins, teve o puxador de toadas Arlindo Júnior como protagonista. Em 91, ele ainda engatinhava na escada da fama. Já era muito importante, uma espécie de patrimônio do boi, mas pouco conhecido de grande público.

Enquanto a forte chuva castigava o seu boi, Arlindo segurava a galera com a potente voz que Deus lhe deu. Em cima de um pedestal que fazia parte do cenário do ritual indígena, o levantador de toada cantou o máximo que pôde. E mesmo com a voz já rouca e tremendo de frio, pedia “aplausos para essa minha galera linda!”.

Arlindo foi protagonista naquela noite

Mas o frio, a forte chuva, o choro geral de outros componentes do grupo já foram fortes demais para o coração do artistas. Lá do alto, ele também levou as mãos ao rosto e começou a chorar, sendo aplaudido pelo bumbódromo inteiro, inclusive pelos torcedores do Garantido, que ainda estavam no bumbódromo.

Como se recolhesse um filho num momento de dor, um dos diretores do boi subiu a escada da alegoria e foi buscá-lo, abraçando-o fortemente. Arlindo desceu os degraus chorando e foi cercado por dezenas de pessoas que se retiravam da arena. Nas arquibancadas, a nação azul continuava tentando segurar o espetáculo, cantando com todas as forças de seu pulmão: Eu vou/ eu vou/ eu vou brincar/ no balanço do meu bumbá!...

Redação BMA

Redação BMA

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