BLOG DO MÁRIO ADOLFO
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Boca Nua da porta-estandarte


No início dos anos 1980, o boi ainda desfilava no tabladão de madeira do velho estádio Tupy Catanhede.‌ Antes de serem chamados pelo apresentador, os itens alegorias e personagens do espetáculo ficavam arrumados, na ordem, próximos à rampa que dava acesso à arena. E, naquele ano, por volta de 1981, quem estava na rampa, esperando a vez para entrar, era a porta-bandeira do Garantido, que levava uma bandeirola onde se lia “Garantido é brinquedo de São João”.

Apesar de bem vestida, a garota permanecia mais séria do que o Zé Serra quando vê manifestante com ovo na mão.‌‌Aquilo preocupava dona Dirce Cansanção, da linha de frente do Garantido, que era pau-pra-toda-obra no boi. Confeccionava as fantasias, maquiava as meninas e cuidava da coreografia e do que mais aparecesse.‌‌

Ao deparar com a porta-estandarte com a cara de quem comeu e não gostou, dona Cansanção não se conformou:‌‌— Ri, menina, tem que , mostrar simpatia pro público. Bora logo, ri, sua besta!‌‌E a garota lá séria, nem piscava. Mais séria do que cachorro em proa de canoa. Dona Dirce não se conformava:‌‌— Ri, sua água, ri sua anta, ri sua capivara!‌‌ E nada. A porta-estandarte permanecia inerte.‌‌ Quando o apresentador anunciou o seu nome, foi o maior estouro de foguete.‌‌— Vem aí a porta-estandarte do boi-bumbá Garantido! A mais simpática e risonha morena da ilha. Item, porta-estandarte do boi Garantidoooooo!!! –, berrou o apresentador.‌‌

Quando a mocinha começou a andar, no ritmo de bailado e sacudindo o estandarte bordado com esmero, dona Dirce se esgoelou, já furiosa da vida:‌‌— Começa a rir sua vaca! Ri, cachorra, senão eu te mato!‌‌A menina olhou para ela e, com cara de quem estava dizendo “já que a senhora insiste, lá vai”, abriu o maior sorriso. Foi um deus-nos-acuda. A bichinha só tinha dois dentes na boca e mostrou o janelão. Dona Dirce, mais do que depressa mudou a ordem:‌‌—Não ri, sua égua! Não ri, sua vaca! Fica séria, porra !!

Mário Adolfo

Mário Adolfo

Jornalista formado pela UA, com mais de 40 anos de experiência. Dois prêmios Esso e criador do personagem Curumim, o Último herói da Amazônia.