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'A ciência precisa ser respeitada, ou a sociedade pagará o preço da ignorância', diz Dr. Marcus Lacerda


O médico MarcusLacerda é infectologista da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD). Muito conhecido no meio científico e jornalístico, ele ganhou os olhos da população em geral durante a pandemia de Coronavírus. Ao lado de outros estudiosos, foi um dos primeiro a pesquisar os efeitos da cloroquina em pacientes infectados pelo novo coronavírus.

Em coletiva, ainda em abril, alertou que o uso profilático da cloroquina não era recomendado e vinha sendo desestimulado por cientistas e pesquisadores. Revelou que pesquisa da FMT apontava que a aplicação de doses mais altas (600 mg) duas vezes ao dia por dez dias teve efeitos agressivos e gerou efeitos como arritmia. E doses de 450 mg não eliminavam o vírus meso depois do quinto dia de tratamento.

Nesta entrevista ao Blog do Mário Adolfo, o infectologista conta que ficou surpreso com os ataques sofridos - ele chegou a ser chamado de comunista e acusado de matar pacientes por ativistas da extrema-direita. Marcus Lacerda afirma que 2020 ficará marcado na história da humanidade que sairemos completamente diferentes desta crise.

O infectologista foi atacado por grupos de extrema-direita

Confira a entrevista:

Blog do Mário Adolfo: Em quanto tempo o senhor acredita que teremos um tratamento efetivo para a Covid-19?

Dr. Marcus Lacerda: Coronavírus, como outros vírus respiratórios, não são organismos para os quais temos muitas opções de tratamento. Para influenza, por exemplo, que é um vírus que convive conosco há muito mais tempo, e já causou catástrofes piores do que a Covid-19, a única opção é o oseltamivir (Tamiflu), e mesmo assim, sua eficácia é limitada. Vírus usam, em sua maioria, a própria célula do hospedeiro para se multiplicar, o que torna difícil encontrar alvos para a ação de medicações, sem que células também sejam agredidas. No caso de bactérias e protozoários, que são organismos microscópicos de maior complexidade, há muito mais opções de tratamento. Por outro lado, há maior facilidade na produção de vacinas para a maioria dos vírus, e é esse que deve ser nosso principal foco a partir de agora: controlar o número de casos até termos uma vacina disponível, o que deve acontecer muito em breve, já que existem muitos grupos e empresas testando alguns candidatos em voluntários, inclusive no Brasil. Em resumo, temos grande chance de não ver uma medicação que seja de fato eficaz para o novo coronavírus. A medicação que se mostrou mais promissora até o momento foi o remdesivir, que ainda segue em fase de mais estudos clínicos.

BMA: As pesquisas do Amazonas sobre uso da cloroquina serviram como referência para várias outras em todo o planeta. Mas o que ainda falta para atestar se o medicamento deve ser abandonado de vez neste tratamento?

ML: Para pacientes internados, já com complicações da doença, praticamente todos os estudos sérios que foram feitos mostraram que nem cloroquina e hidroxicloroquina fazem qualquer efeito. Em Manaus, onde já existe grande experiência na realização de estudos clínicos, na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, nosso estudo pioneiro comparou duas doses diferentes de cloroquina, e nem a dose mais alta, que esperávamos que fosse curar os pacientes, funcionou. Ao contrário, ela foi mais tóxica. E mesmo a dose mais baixa, que foi mais segura, não mostrou eliminação do vírus no quinto dia, o que havia sido demonstrado em um primeiro estudo realizado na França. Recentemente tivemos a evidência de que a cloroquina também não funciona para a profilaxia de pessoas que entraram em contato com o vírus, o que nos leva a crer que não funciona em nenhuma fase da doença. A impressão de que funciona, por parte de muitos médicos, está no fato de que poucos ficam graves de fato, além da cloroquina ter uma ação anti-inflamatória, diminuindo febre e dor no corpo, mas nada que outras medicações mais seguras não fariam. Há centenas de outros estudos em andamento em todo o mundo que devem ser anunciados em breve, mas neste momento, a cloroquina não deve ser prescrita, porque além de não funcionar, pode causar arritmias cardíacas em pessoas mais idosas, porque boa parte delas não terão acesso à realização de eletrocardiograma diário, para monitorar eventuais problemas. Só para destacar, a cloroquina já foi abandonada em quase todos os países para o tratamento da Covid, apenas no Brasil ela persiste sendo prescrita por orientação do Ministério da Saúde.

BMA: O senhor já havia visto a ciência ser tão atacada quando durante esta pandemia? Isso lhe assustou?

ML: A Ciência não tem respostas rápidas, mas ainda é a única e melhor forma de guiar nossas atitudes frente ao caos. Pessoas com medo da morte aceitam qualquer alternativa de medicação ou informação que lhes traga esperança. É melhor acreditar que a cloroquina nos cura a todos, é melhor acreditar que em Manaus os caixões estavam sendo enterrados vazios, é melhor acreditar que Covid-19 é uma gripe leve e passageira. A possibilidade de morrer nos cega de uma maneira que não é novidade na história da humanidade. Mas a forma como pessoas acreditaram que nós, pesquisadores, poderíamos ter matado pessoas de propósito, apenas para mostrar que a droga não servia, me deixou sim assustado. Os cientistas precisam gozar de mais respeito junto à sociedade, ou essa mesma sociedade pagará o alto preço da ignorância. Confesso que também me assustei em como os próprios amazonenses não acreditaram que nós tínhamos aqui em Manaus feito o primeiro estudo clínico controlado, para avaliar a segurança e eficácia da cloroquina. É como se tudo o que fosse bom tivesse de vir de fora. O Amazonas tem qualidades ainda desconhecidas pelo seu povo. Muita gente não sabe que as medicações que usamos hoje para malária e HIV, por exemplo, muitas delas foram avaliadas aqui em Manaus, por nossos pesquisadores de altíssima qualidade, na área das doenças infecciosas. Nesse caso, as questões de preferência política precisam estar de lado, sem que isso interfira no orgulho que temos desse grande estado da federação.

BMA: Percebe-se claramente que hoje já se sabe tratar melhor os casos graves de infectados pelo novo coronavírus. Há menos mortes. Os anticoagulantes estão sendo usados neste tratamento e com eficácia?

ML: Não apenas os anticoagulantes, que devem ser usados com cautela, e de forma individual, em pacientes hospitalizados apenas, mas virar regularmente os pacientes de bruços (posição de pronação), uso precoce de oxigênio de forma não-invasiva, além da possibilidade de que o uso precoce de corticóides, que são anti-inflamatórios potentes, diminua a inflamação dos pulmões. Nosso grupo também já está em fase final de análise de dados de um grande estudo sobre uso de corticóides em pacientes com Covid-19, que deve ser publicado na literatura científica em breve.

Entrevista em que Marcus Lacerda falou sobre estudos com a cloroquina

BMA: Qual porcentagem da população o senhor achar que já foi infectada em Manaus?

ML: Essa é uma pergunta bem complicada. Para a queda substancial do número de casos em Manaus, é preciso que boa parte da população suscetível já tenha sido infectada, com ou sem sintomas, afinal tivemos pouco isolamento social, em comparação com outras cidades da Europa, por exemplo. Algumas empresas estão mostrando entre 40 e 60% de positividade dos testes rápidos entre seus funcionários. A Fundação de Vigilância em Saúde está planejando um grande estudo com 5.000 pessoas de todas as áreas da cidade, para confirmar essa informação, de forma definitiva.

BMA: Que lição fica para o senhor quando sairmos dessa crise?

ML: Seremos diferentes. Teremos aprendido mais sobre o ser humano do que aprendemos em qualquer curso universitário, ao longo da vida. Teremos entendido melhor a cabeça dos nossos políticos, os que de fato têm integridade e os que não merecem mais nosso voto. Teremos valorizado mais as especialidades médicas que nos pareciam desconhecidas, como a Infectologia. E finalmente, sairemos da crise um pouco envergonhados de nós mesmos, como indivíduos e como espécie, do que tivemos coragem de fazer e do que não tivemos coragem. Nossos filhos, que pouco se infectaram e sofreram da doença, guardarão na memória o ano de 2020 como o ano em que viram as maiores fragilidades de seus pais. Muitos se interessarão pelo jornalismo, outros pela Ciência, outros pela Medicina, mas antes de tudo, nossos filhos deveriam se interessar em se tornar seres humanos melhores.

Mário Adolfo Filho

Mário Adolfo Filho

Jornalista, formado pela Universidade Federal do Amazonas. Com passagem por grandes jornais de Manaus, Prefeitura de Manaus, Câmara Municipal de Manaus e Câmara dos Deputados.