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Crônica – Uma noite na “guerra de guerrilha” do Araguaia

Aprendi muito cedo, com Summer of 42,  filme americano de 1971, dirigido por Robert Mulligan e estrelado por Jennifer O’Neill, que “na vida de cada um de nós houve uma vez um verão”.  O meu foi em 1988, quando aceitei o desafio que tinha sido feito há anos por meu cunhado que mora em Goiânia, José Ademar Arruda da Costa, para tirar férias no Araguaia.

— No dia em que você vier, nunca mais vai querer deixar de vir! –, propagandeava Ademar, então marido de Mércia, minha irmã, que tem a posse de uma ilha batizada genialmente de “Meia-Ilha Tostói”. Ademar tinha sido um excepcional  goleiro que fez fama no Sancol, um time amador lá do bairro da Cachoernha. Era capaz de de saltar do chão para tirar uma bola de tapinhas, depois de já ter sido vencido. Por conta dessas pegadas “milagrosas”, com saltos e “pontes” milagrosas sob o pau da trave, ganhou em Goiás o apelido de “Gato”. Lá, ninguém conhece Ademar, conhece o “Gato”.

O rio Araguaia sempre despertou a curiosidade do jornalista, por ter sido palco de uma sangrenta guerra de guerrilha  em um dos momentos mais obscuros da história contemporânea do Brasil. De 1972 a 1975, guerrilheiros travaram o maior levante armado contra a ditadura militar (1964-1985) promovido pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), que, à época, estava na ilegalidade. Um grupo de 98 guerrilheiros – 78 jovens das grandes cidade e 20 camponeses recrutados no Araguaia – enfrentou o Exército durante três anos na floresta amazônica, na região entre os estados do Pará e Tocantins. Exército deslocou um efetivo de aproximadamente 5 mil homens, na maior mobilização militar no país desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em três campanhas. Somente a última campanha obteve sucesso, com a ajuda de mateiros da região e militares infiltrados entre os moradores. Tudo isso, no entanto, ocorreu sem que a população brasileira soubesse de nada. Os veículos de comunicação estavam sob censura do regime militar e não podiam relatar a guerra que acontecia no meio da selva amazônica. Por tudo isso, era óbvio que o rio Araguaia, cujas águas corriam também em território Goiano, despertasse a curiosidade de qualquer repórter que se preze.

Toda vez que falávamos por telefone, o bom e velho “Gato”cutucava.

 — E aí, quando você vem pro Araguaia?

 Um dia eu topei. Era um daqueles momentos em que você sente que está respirando com dificuldade e se questiona se vale apenas tanta correria. Telefonei para Goiânia dizendo que ia.

— Traz só uma barraca e bastante remédio pro fígado! – avisou Ademar “Gato” Arruda.

Convidei meu parceirinho e melhor amigo, o poeta Simão Pessoa, que àquela época ainda não havia descoberto que seu destino era mesmo jornal e insistia em fazer fortuna ocupando um cargo no Distrito Industrial de Manaus. Ninguém é perfeito. Simão estava de férias e topou. Compramos as passagens no cartão de crédito, juntamos todas as fitas-cassete do Vinicius, Belchior, Alceu Valença, Led Zepellin, Pink Floyd e Beatles e lá fomos nós, rumo a Goiás. No aeroporto de Brasília encontramos o então deputado João Pedro, ainda no PC do B. Quando ele viu as mochilas João estranhou e, como que  por intuição, brincou:

— Vocês vão para alguma guerrilha?

— Quase isso. Estamos indo passar as férias no Araguaia. Tá a fim?

Enquanto esperávamos a conexão para Goiânia, tomamos, em companhia do João, 17 choppinhos no aeroporto de Brasília.  Chegamos à noite  em Goiânia, depois das 23h. Mesmo assim, ainda insistimos que deveríamos ir direto para o Café Colombo, um botequim agradável próximo à casa de minha irmã, mas o bom sendo (o dela) aconselhou que o melhor a ser feito era mesmo dormir, afinal, partiríamos às 3h da madrugada e a viagem de carro era longa.

Com um céu de verão ainda estrelado e minha irmã no volante  pegamos a estrada na hora combinada. No percursos, Mércia parou o carro três vezes para abrir o capô e tentar descobrir que ruído de “peça solta” era aquele que estava preocupando.

— Tem um ruído estranho. Alguma coisa está solta. Vamos ficar no prego.

— Nada não, mana – avisei –,  é uma fita de  rip-rop americano que  o Simão tá ouvindo no gravador!

Ao meio dia estávamos cruzando a cidadezinha de Jussara (GO), que naquela época entrara na mídia nacional através da novela “O Salvador da Pátria”, onde o boia fria SassáMutema (Lima Duarta) conseguia o milagre de pegar a professorinha gostosa (Maitê Proença) e, de quebra, ainda se elegia prefeito. A vida continua imitando a arte e, de lá para cá, a relação poder, amor e dinheiro não mudou quase nada.

Em Jussara, “Gato” e seus convidados já nos esperavam com algumas latinhas de cerveja. De lá, seriam mais 45 minutinhos de barco. Depois dos vários brindes para festejar o reencontro, varamos uma fazenda, entre pinguelas e vicinais, até chegar à beira do rio, onde os barcos – motores de rabeta –, nos aguardavam.  Navegando pelas águas barrentas nos demos contas do momento histórico que estávamos vivendo.  Aquele era o nosso primeiro contato com o famoso rio Araguaia, que tão bem conhecíamos do livro de Fernando Portela – Guerra de Guerrilha no Araguaia. A emoção foi inesquecível.

“Só eu e meu

Nariz, no meio de

um paraíso verde”

 Às 14h 30 avistamos a “Meia-Ilha Tostói”. Um barracão armado há poucos dias – a palha ainda estava nova –, funcionava como uma espécie de Armazém, onde ficavam os mantimentos, os engradados de cerveja, água, as caixas com gelo e o fogão a lenha na cozinha improvisada. Ao redor, dezenas de pequenas barracas de lona coloridas armadas numa praia cuja areia parecia que tinha sido peneirada e tingida de branco. Era tudo aquilo que eu sonhava. Céu azul, sol,  praia, rio, música, cerveja e amigos do peito. Sem hora pra chegar, ir, ou voltar. Só eu e meu nariz, no meio de um paraíso verde.

— O Araguaia é a Amazônia em miniatura, sem a agressividade da Amazônia -, resumia Ademar “Gato”, tetando traduzir aonde dois malucos urbanistas estavam metendo o nariz.   Meu pensamento foi cortado quando de longe vislumbrei a cabecinha branca da minha mãe, Inês de Castro,  acompanhada de outra irmã, Marilúcia. Estava em casa, sob as bençãos da mãe natureza e de minha própria mãe.

De dia, a temperatura do Araguai,   apesar do vento constante,  chegava   aos 42ºC. À noite caía terrivelmente, sendo preciso luvas, gorros e grossos agasalhos para suportar o frio. Esse momento era curtido com uma fogueira, uma garrafa de pinga de alambique, um violeiro por perto e uma carne queimando.  O consumo de cerveja era tanto que passamos a observar o comportamento de um dentista, amigo do meu cunhado. Entrava dia e saía dia e ele não largava a lata de Skol. Às vezes , às 7h da manhã, quando deixávamos a barraca e rumávamos em direção ao rio para o banho matinal, antes do café,  lá estava o cara com a Skol na mão.

— Sabe como vai ser o apelido desse cara?–, avisou Simão.

— Sei não.

— Mão de lata! – respondeu Simão. E  não é que pegou.

De manhã cedo, navegávamos pelos furos do rio para armar as malhadeiras e pescar o alimento do dia. Feito o serviço, era hora de caminhar pela praia para “emborcar” tartarugas e procurar ovos, o que era feito sob meu protesto de ecologista. Mas, à época, isso ainda era permitido. Certa vez pescaram uma Caranha (um peixe liso, grande) que ficou presa por uma corda para ser saboreada no almoço seguinte. Mas, no outro dia amanheceu sopmente a  corda. E, além disso,  cortadaa faca.  Na segunda noite, foi a vez de uma tartaruga enorme ser atirada ao rio. Todos me olhavam com olhar de desconfiança, achando que era eu o “ecolouco” que salvava os bichos na calada da noite. Até que um dia decidiram armar uma tocaia para por fim ao mistério. Na estratégia, urdida pelos cabeças do acampamento,  espalharam  que um peixe boi havia sido capturado e estava preso em uma gaiola no rio, pronto para virar banquete.  Foi então que os dois sentinelas escalados para montar a vigília,  escondidos em um arbusto, flgraram uma sombra se movimentando dentro da noite. Ao disparar o foco da lanterna deram de cara com Mayara, uma garota de 16 anos, a misteriosa ecoxiíta que saía em defesa da natureza enquanto o acampamento dormia. Foi um escândalo.  A menina foi “condenada” a passar três dias comendo bolachas e biscoitos.

Certa manhã, enquanto contemplava uma faixa de areia branca do outro lado do rio, quis saber o que nos aguardava na outra margem e fui infornado que ali já era o Mato Grosso. Pra quê! A partir daí, todos os dias,  eu fazia o convite ao Simão:

— Bicho, vamos mijar lá no Mato Grosso? –,  E lá íamos nós, de canoa,  mijar o nosso estado vizinho.

Que o Ibama não nos leia, mas a  primeira grande caça da temporada foi um jacaré enorme. Quando os cozinheiros estavam preparando o bichão para ser traçado, Simão com seu humor cáustico jogou uma praga.

— Quem comer um teco sequer esse jacaré vai sofrer a maior dor de barriga que o Araguaia já viu. Tô avisando,  hein!

O cara mais empolgado com o prato típico era um comportado rapaz chamado Lula, que não falava nada mas prestava a maior atenção. Coincidência ou não, a praga que o Simão rogou vingou.  Por toda a semana Lula foi visto correndo com um rolo de papel higiênico na mão, suando frio,  em direção ao sanitário ecológico, que nada mais era que  um buraco cavado no chão,  com paredes de madeira, sem telhado , a 300 metros do acampamento. Ao longe uma ave infiscreta  cantava:Bem-te-vi! Bem-te-vi!

A maior bandalheira estaria por vir. No dia em que alguns rapazes ecologistas chegaram de caiaque à ilha para conscientizar os veranistas de que teriam que enterrar o lixo, não cortar as árvores, não jogar latinha de cerveja no rio, não acender fogueira perto da mata é muito menos matar animais silvestres, o cretino do Simão começou a gritar feito um louco, deixando os  visitants apavorados:

— Tragam o jacaré enorme que eu matei ontem à noite! Tragam que os nossos amigos também querem provar do guisado!

— Meu Deus, são uns bárbaros, são uns monstros!  –, diziam, incredulous,  os garotos, arrumando seus caiaques para bater em retirada. Foi um vexame. Para convencer os ecologistas, estarrrecidos,  de que tudo não passava de uma provocação foi uma mão de obra.

Certa noite de sábado, detonávamos algumas ampolas ao som de “Mother”, a música em que Lennon fala de sua mãe e canta quase berrando. A voz rouca do ex-Beatle quebrava o silêncio da ilha.  Alí bem próximo, em volta de uma fogueira, um grupo cantava clássicos da música caipira ao som da viola de Evandro Sarney,  um pescador bigodudo que lembrava a cara do presidente. Um deles era um padre, Jordino,  que lecionava filosofia na Universidade Católica de Goiás. O outro era o gaúcho José Ternes, que também ensinava filosofia da mesma faculdade. Irritado com o rock do ex-Beatle,  Padre Jordino olhou para seu parceiro gaucho e exalou o veneno:

— Ei gaúcho, isso não está muito alto não?

O gaúcho concodou e passou a  nos entimidar no grito:

—  Barbaridade, tchê! Baixa essa porra, índio velho!

— Ahn? O quê? Não estamos ouvindo nada! –,  gritávamos, fingindo não estar entendendo a queixa do Gaúcho. Em determinado momento, o padre, que tinha uma perna mecânica, comentou alguma coisa com o gaúcho, pegou o terçado e foi em nossa direção.

— Peraí que eles vão já ouvir! –, dito isso, caminhou em direção ao porte que sustetava a “rede” ligada ao gerador de luz  e zás! Cortou o fio da nossa caixa de som.

Quando Ademar,  que tinha ido ver as malhadeiras, retornou ao acampamento e viu a gente em silêncio  com cara de bundão, perguntou:

— O que houve, suas bestas? Cadê o som?

— O padre cortou o fio com o terçado! –, dedurei.

Nosso anfitrião, que já tinha tomado umas cinco doses,  pegou outro terçado e bradou enfurecido:

— Ah, é?  Então eu também vou cortar o violão deles no meio!!!

E aí o tempo fechou. Sopapos, tentativas de capoeira, tabefe no pé do ouvido, poeira levantando, violãozada no lombo, madeira em brasa  queimando a sola do pé e a turma do “sossega mariquinha”  tetando apartar… O que a princípio era um simples bate-boca entre bêbados, acabou num verdadeiro arranca rabo de cabaré. A confusão só teve fim quando minha mãe, aos 70 anos, saiu de dentro da sua barracada armada com uma vassoura e foi distribuindo vassouradas em todo mundo.

— Vão dormir cambada de filhos de uma égua! – dizia enquanto descia o cabo de vassoura. Não satisfeita, dona Inês, que sempre fuma mulher previdente, escondeu todas as facas , garfos e espetos de churrascos para evitar assassinatos na madrugada. Aquela noite ficaria conhecida,  no resto das férias, como “Sábado sem Lei”.

Ao amanhecer, no café da manhã, não havia uma faca de mesa pra passar manteiga, quanto mais para cortar o pão. E o que é pior, foi uma luta para achar, já que mamãe não lembrava onde tinha enterrado o arsenal bélico.

No ofício de repórter, viajei a muitos lugares do mundo. Mas aquelas férias de 1988 no Araguaia foram as mais incríveis férias da minha vida. Dezoito dias a céu aberto, sem a neurose da civilização e sem o estresse da redação do jornal.

No dia em que viemos embora, mais bronzeados  que a bunda da então Globeleza Valeria Valença, o Simão olhou a montanha de 38 engradados de cerveja, vazios, empilhados no canto do acampamento, e  comentou:

— Mário Adolfo, meu irmão, se essa porra fosse Antárctica a gente tinha  morrido!

Dei uma útima olhada naquela paisagem e confessei baixinho:

—  Quer saber de uma coisa, cara?

— O quê?

— Bora embora  que eu já estou com saudades da poluição!

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