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Carta de um ex-futuro porra louca à sua mãe porra louca (do signo de áries)


Mãe, domingo acordei com espírito de Belchior. Bateu forte no peito uma vontade de andar ao léu. Como na semana que vem tem feriado, decidi colocar isso em prática. Chega de ficar repostando fotos de blog de viagem no Instagram. Agora vai. Vou virar bicho do mato, andarilho. Liguei o computador para ver meu extrato bancário.

Disponível para saque pouco mais de mil reais, mas mil é do cheque especial. Quem se importa com essa porra. Hippie, andarilho, maluco beleza não tem preocupação com banco. Anarquia pura. Morte ao sistema bancário. Viva la revolucion.

Abri o guarda roupa para escolher as vestes desta empreitada. Porra, mãe, eu só tenho camisa polo. Que coisa de burguês. Qual andarilho caminharia pelas estradas de camisa polo? Abandonei a ideia do andarilho, pois além das roupas, não teria preparo físico para isso. Abasteci o golzinho e meti o pé na estrada com destino à Bahia. Vou fumar maconha nessa porra. Pela primeira vez, mesmo chegando aos 40. Dirigi 600 km e parei num posto de gasolina. Dormi no carro. Acordei cedo com a missão de ver o sol nascendo por trás da mata. Não foi melhor a sensação, pois as costas doíam muito. Dormir no golzinho não foi fácil. 


Já estou na Bahia. Fumei um baseado que não me fez nada bem. Tossi pra caralho e vomitei. Eu não suporto mais os baianos tentando me vender aquela porra da pulseira do Senhor do Bonfim. Fiz uma tatuagem, era pra ser o Bob Marley, mas ficou uma merda. O filho da puta do tatuador digitou no Google, em Imagens, “Bob Marley”, apareceu uma foto do Marco Luque, com seu personagem Rastafary e é isso que está tatuado no meu braço. Ainda tenho uns 500 reais na conta.

Ontem fiz bico como garçom numa barraquinha de Porto Seguro. Eu não suporto mais ouvir axé. Talvez eu tenha escolhido a cidade errada pra ser doidão, ou talvez eu não tenha nascido pra isso. Estou pensando em rever aquela ideia de trabalhar no Mc Donalds por aí mesmo. Talvez eu volte a estudar. A Bahia é linda, mas sem dinheiro não tá dando liga. Eu não sei o que fazer com essa tal liberdade. Tem como a senhora depositar uns mil reais na minha conta?

– Resposta do destinatário: “Filho, querido: Vá se foder”.

Mário Adolfo Filho

Mário Adolfo Filho

Jornalista, formado pela Universidade Federal do Amazonas. Com passagem por grandes jornais de Manaus, Prefeitura de Manaus, Câmara Municipal de Manaus e Câmara dos Deputados.