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Aquele fim de ano em que Simão Pessoa e eu arrombamos um bar


Houve um tempo, na Manaus dos anos 1980,  em que alguns bares pareciam a continuação de nossa casa. A identidade era tão grande que acabavam se transformando numa espécie de “bar esperança”, o último que fecha, imortalizado no filme do grande Hugo Carvana. Com o Bar-Raka, na rua Parintins, Cachoeirinha, a coisa funcionava assim. Começou com uma barraca de praia, na Ponta Negra, criada pelo então bancário Rui Assunção, que resolveu fugir da inflação de 100% ao ano vendendo cerveja na praia. E deu certo, porque nossa turma saia  em comboio nas sextas-feiras para amanhecer o dia na praia, em companhia do nosso amigo Rui, da caipirinha, cerveja, isca de queijo, azeitona e da  boa música. Além, claro,  dos amassos na areia branca da praia, sob à luz do luar.

Mas, vida de dono de bar, como diria Juca Chaves, é que nem vida de ginecologista: Trabalha onde os outros se divertem. E cansado daquela vida de ver o sol nascer diante do Rio Negro, o mais belo do mundo, e aturar bêbedo, Rui resolveu desmontar a barraca e migrar para a Cachoeirinha, onde construiu, no quintal de sua casa,  um espaço gostoso, arejado, todo feito em bambu e madeira rústica.

Certo dia cheguei da faculdade e encontrei o Rui atarefado nos retoques finais para a inauguração. E uma de suas maiores dúvidas estava sendo escolher o nome do bar. Pensou em colocar  “Tatiana Drink’s”, em homenagem à filhota. Bar Cigano”, uma menção ao nosso bloco carnavalesco, ou ainda Pitom Bar, em homenagem à pitombeira.  Como a gente sempre conversou muito e tinha uma cumplicidade incrível, resolvi meter o meu bedelho.

— Bicho, coloque o nome que colocar, teu bar sempre será chamado de “barraca do Rui”, por causa da lembrança da barraca da praia. Então, por que não colocar logo Bar-Raka Drink’s? – sugeri. E o Rui adorou.

Com o tempo, o Bar-Raka pegou nome e passou a ser parada obrigatória. Com 20 e poucos anos,  Simão Pessoa e eu, às vezes até abusávamos  do amigo, porque entrávamos pela madrugada. Vez por outra, retornava do jornal com uma fita cassete na mão. Pedia uma cerveja, pousava a fita no balcão e sugeria:

—Rui, coloca essa aí.

Ele lia a indicação que estava escrita com caneta na fita e pulava nas tamancas:

—Geraldo Vandré? Nem fodendo! Quer que eu seja preso, é?

É que nos anos de chumbo, a canção “Pra não dizer que Não Falei de Flores”, conhecida como “Caminhando”, escrita e interpretada por Geraldo Vandré, que ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968, teve sua execução proibida durante anos pela ditadura, porque tornou-se um hino de resistência do movimento civil. Por isso, a paranoia do Rui fazia sentido. A música era censurada e bastava ter um dedo-duro – e à época era o que mais tinha –, por perto pro nosso amigo se ferrar.  Mas, à medida que o bar ia ficando vazio,  lá pela meia-noite, e ele olhava nossa cara de insatisfação, acabava cedendo:

— Vou colocar, mas bem baixinho. Se eu for preso entrego todo mundo!

E a roda viva foi girando e, com o tempo, Rui também encheu o saco do Bar-Raka. E resolveu passar o botequim adiante. Quem comprou foi o comerciante Wilson Fernandes, que vendia verdura numa banca de feira livre e, como bom da Zona Franca, passou a fornecer comida para o Distrito Industrial de Manaus, transformando-se em um microempresário bem sucedido. Como o Wilson tinha o mesmo nome e se vestia com o mesmo charme do pop star Wilson Simonal, passamos a chamá-lo de Simona. E com ele, o nível de cumplicidade era ainda maior. Quando a gente entrava pela madrugada tomando Antarctica e ouvindo a banda “Cio da Terra”, do nosso amigo Léo, o negão segurava até onde dava. Mas tinha um momento em que ele jogava a toalha. Caindo de sono, atirava a chave do bar sobre a nossa mesa e dizia:

— Taí a chave do bar. Tem cerveja gelada no freezer, quando acabar coloquem as garrafas no chão senão os gatos derrubam e quebram. Fechem a porta e amanhã a gente confere quantas  vocês tomaram. E aí vocês me pagam.

E ia embora, deixando o Bar-Raka entregue aos boêmios.

No Natal de 1983 resolvi passar o Natal na casa da minha mãe e minhas irmãs, com Teresa e o meu filho Marinho, que tinha 02 anos. Tive a feliz ideia de convocar Simão Pessoa, que também já havia morado na Parintins, esquina com a Borba, onde fomos criados. Depois da ceia, a Teka, que nunca foi muito da noite,  resolveu ir embora e eu falei que ficaria bebendo com o Simão. Mas, por vota de 01:00 da madrugada, a cerveja acabou e resolvemos caminhar até o Alzira’s Bar, que também era um daqueles “último a fechar”. No entanto,  no Natal, até a Alzira queria pegar o restinho do Papai Noel em casa. E por volta de 02h30 resolveu chutar o pau da barraca e tirar o time de campo. Desligou a máquina de música, emborcou as cadeiras sobre as mesas e apagou a luz.

—Vão pra casa de vocês cambada de cachaceiros! –, vociferou  Alzira, que andava cada dia mais carinhosa.

Foi um chute no saco, porque Simão e  estávamos com uma sede de anteontem.

— Melhor ir embora. Estou sem carro e já é tarde. Vamos pegar um táxi – sugeri ao Simão, enquanto caminhávamos no silêncio da noite, pela avenida Carvalho Leal, dobrando em direção à Parintins, ouvindo o chec, chec, chec da sola de sapatos  nos grãos de areia do asfalto.  E foi olhando lá para o final da rua que Simão teve a ideia sinistra.

— Olha alí na nossa frente. O que eu vejo? Nossos problemas acabaram!

— Olha o quê? – perguntei.

— O Bar-Raka, bicho!

— Sim, e o que tem o Bar-Raka, cara? – perguntei.

— O bar onde a gente vai beber, ora bolas!

Só aí eu saquei a ideia do maluco. Não era à toa que nós o chamávamos de Simão Pessoa nefasta. E confesso que adorei o que também começou a se desenhar na minha cabeça. Imediatamente, com a ajuda de um pedaço de cano, arrombamos o cadeado e abrimos a porta do bar. Entramos sorrateiramente e encostamos a porta suavemente. Acendemos, discretamente,  apenas uma lâmpada interior para não chamar a atenção. Simão pegou uma mesa e colocou no meio do salão. Eu coloquei um guardanapo no braço esquerdo , uma bandeja sobre a mão direita  espalmada e perguntei:

— O cavalheiro vai beber o quê?

— Me veja um whisky 12 anos, por favor. E uma carteira de Charm.

E eu ia até o balcão, abria a garrafa zerada e despejava a dose no copo do Simão com três pedras de gelo. Em seguida, acedia o cigarro que ela colocara na boca.  Minutos depois, quem fazia as vezes de garçom era ele.

— O jovem cavalheiro já escolheu a bebida?

— Me manda um Campari, garçom. E uma carteira de Malboro branco!

E o Simão ia lá na prateleira, abria a garrafa e me servia.

Foi assim a noite inteira. Nessa presepada, bebemos cerveja, Vodka, Gim, Campari, Whisky. Fumamos Charm, Malboro e More – uma cigarrilha inglesa importada pela Zona Franca.

Quando o galo da dona Joana, vizinha do bar,  cantou pela primeira vez, anunciando que o dia já vinha amanhecendo, fechamos o botequim e, na calada do alvorecer, vazamos.

No outro dia, o Bar-Raka amanheceu cercado pela vizinhança em torno de uma viatura da Polícia. Conversando com os policiais o Simona tentava entender e ao mesmo tempo relatar para os policiais o que tinha acontecido naquela misteriosa noite de Natal.

— Eu não consigo entender, seu guarda. Os ladrões arrobaram o bar, mas não levaram nada. Tinha aparelho de som, televisão, caixas de whisky, vinho, um restinho de dinheiro no caixa… mas eles não roubaram nada. Só beberam e fumaram pra cacete !

Simão e eu retornamos ao Bar-Raka  na semana seguinte. E com a cara mais lambida do mundo ouvimos a história do Wilson, mas não falamos nada. Somente 20 anos depois, numa conversa com o negão confessamos o “crime” que, foi perdoado pelo Wilson Fernandes com uma gargalhada e  uma frase que resumia tudo.

— Mas que sacanagem, cambada de filhos da puta!

Mário Adolfo Filho

Mário Adolfo Filho

Jornalista, formado pela Universidade Federal do Amazonas. Com passagem por grandes jornais de Manaus, Prefeitura de Manaus, Câmara Municipal de Manaus e Câmara dos Deputados.