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A tristeza de saber, logo na manhãzinha de sexta-feira, 04/07, que o compositor Luiz Melodia nos deixou, banhando de lágrimas o chão da Estácio e deixando ainda mais pobre a MPB, me remeteu a um momento vivida nas andanças noturnas pela boemia de Manaus.

Corria o ano de 2003, quando a Associação dos Funcionários Fiscais do Amazonas (AFFEAM) divugoun que estava trazendo o “negro gato” para um único show, numa noite de sexta-feira. Que é apaixonado ‘pela boa música não poderia, jamais, perder um show daqueles. Na época, o prédio do EM TEMPO, jornal em que na época eu era diretor de redação, ficava ali perto. Era só atravessa a avenida André Araújo.

Em tempos bicudos de salários congelados, era complicado pagar R$ 150 por uma mesa, mas eu meti a cara e comprei. Convidei Maria Rita Chaves e lá nos encontramos com outros amigos. Lembro que o pré-show foi feito pelo nosso Cileno, que arrebentou e surpreendeu muitos manauaras que àquela época, ainda não o conheciam.

Quando Melodia entrou no palco, por vota das 22 horas, de calça branca, blusa florida e sapatos mocassim, senti que estava realizando um dos meus maiores sonhos – assistir ao grande compositor cantar “ Estácio, Holly Estácio” e “Pérola Negra”. O show era a céu aberto e o “negro gato” cantou iluminado por uma esplendorosa lua cheia prateada.

Naquela noite, entornamos várias ampolas de Antarctica e abastecemos a alma com as mais belas canções e com a voz quase rouca de Luiz Melodia – Ébano, Juventude Transviada, Quase Fui lhe Procurar, Magrelinha, Negro Gato e tantas outras.

No final do show, que teve a duração de uma hora e meia, extasiados e felizes resolvemos esticar a noite no “Porão da Bossa”, o inesquecível bar de João Thomé e Celso Seixas, o “Galileu”, que era o botequim da hora e onde se uma ouvia uma boa música, quase sempre levados pelo braço do violão de Kokó.

Alí, por vota da meia-noite, entre uma cerveja e um fio de fumaça do Charm longo, direcionei meus olhos para o palco, que ficava muito próximo às mesas. E adivinha quem acabara de entrar, ocupar o banquinho, cruzar as pernas e acomodar o violão no colo? Ele mesmo, Luiz Melodia. Arranjaram um cigarrinho do índio pro “negro gato”, prensado e da boa, e o negão deu uma canja de mais de uma hora. De graça.

Bem que poderia ter economizado os meu R$ 150, pensei. Mas depois me dei por satisfeito, afinal, sou um dos poucos no Amazonas que viu e ouviu o Luiz Melodia duas vezes, numa só noite. Na verdade, os deuses foram generosos com os boêmios.

Mário Adolfo Filho

Mário Adolfo Filho

Jornalista, formado pela Universidade Federal do Amazonas. Com passagem por grandes jornais de Manaus, Prefeitura de Manaus, Câmara Municipal de Manaus e Câmara dos Deputados.