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O repórter que irritou Collor e nunca fez sexo

Era um  dia de sol  aquela manhã de março, o que tornava as águas do Rio Negro ainda mais cintilantes. O público que circula pelo píer do Tropical Hotel, porto de embarque para passeios fluviais, era bem diferente do costumeiro. Nada de quadrilhas de turistas com suas caras sardentas e olhos azuis, como cantaram certa vez o bardo Aldísio  Filgueiras e seu menestrel Zeca Torres. Mas sim legiões de jornalistas sedentos de notícias e em busca de uma declaração do então presidente Fernando Collor de Melo (PRN), coisa considerada quase impossível para o momento irritado que o presidente vivia. Aliás, em tempos de campanha, em sua disparada rumo à presidência, o “caçador de Marajás” era só sorrisos. Uma vez sentado na cadeira de presidente, era de um mau humor que desarreda.  O homem preferia parlamentar com o capeta a ter que aturar jornalistas.

Naquele  longínquo dia que não me sai da memória, 19 de agosto de 1992,  o presidente  estava em Manaus para  participar de uma reunião do Pacto Amazônico. Não, ainda não havia nenhuma CPI atormentando  os doces e coloridos  sonhos de poder de sua excelência. Mas, Collor já andava nervosinho, fazendo questão de demonstrar que não nutria nenhuma simpatia pela imprensa, culpada, segundo ele, pelas grandes mazelas do país e pelas futricas de sua vida pessoal, que estavam lhe tirando o sono e corroendo o seu casamento  com Quinha, como ele tratava a mulher Rosane Collor.  Até aí,  nenhuma novidade.  O asco de Collor por jornalistas não era nenhuma coisa inusitada. Apenas confirmava a máxima de que, para o poder “repórter bom, é repórter longe.

Mas parece que o ex-foca do Jornal do Brasil (isso mesmo, filho de dono de jornal em Alagoas,  Collor deu seus primeiros passos como aprendiz de repórter no bom e velho JB), esqueceu um dos  mandamentos de repórter. Na briga  por um furo é preciso saber resistir. Nem que tenha que passar o dia inteiro para ouvir um sonoro “não”. A regra geral para se levar a manchete para a redação aconselha paciência, perseverança e determinação.  E por isso, naquele dia, o batalhão de jornalistas que veio de todas as partes do mundo e dos países limítrofes, aguardava, no píer do Tropical, o retorno do presidente de um passeio fluvial pelo Rio Negro.

Algumas horas depois, o barco com a comitiva presidencial aportou. Antes que um cordão de puxas-saco encontrasse a saída,  Collor saiu na frente, afinal, descer  e subir a rampa era com ele mesmo. Estiloso,  e com o cabelo impecavelmente imobilizado por  gel, o presidente soltou  do barco com desembaraço, demonstrando que tinha mesmo intimidade em com rampas. Antes do homem pisar em terra firma, os seguranças haviam tratado de manter o espaço estrategicamente isolado para que nenhum jornalista “xiíta” se aproximasse, causando possíveis constrangimentos ao presidente. Mas o esquema de isolamento não foi tão cuidadoso assim. Quando Fernando Collor ensaiava os primeiros passos para disparar em direção ao saguão do hotel, uma figura pequena – saída não se sabe de onde –, de arma em punho (um gravador Sanyo, empunhou a máquina mortífera, o terror de  ministros e outros homens do poder, e disparou à queima-roupa:

— Presidente, os jornais estão dizendo que você vai sair de férias?…

— Você  um caralho!!!! –, vociferou, irado,  o presidente, acelerando os passos, enquanto o repórter era convidado “gentilmente”, com algumas cutucadas nas costelas desferidas pelo gorilas da segurança, a se retirar.

Mas quem era aquele ousado jornalista que se atrevia a falar assim com o intocável Collor? O exótico repórter era o correspondente da Folha de S.Paulo, em Manaus, Efrém Ribeiro, então com 25 anos. A façanha lhe custou um puxão de orelhas publicado em seu próprio jornal, que não permite intimidade com o poder – ao menos não permitia, naquela época . “O entrevista deve ser tratado sempre como  “senhor”, orienta o jornal em seu manual de redação. Mas o destino pregara,  naquela manhã,  uma peça  no excelente profissional.  No meio jornalístico, todos nós sabíamos a forma respeitosa com que Efrém tratava as pessoas. Fosse autoridade ou não.  Até mesmo seus colegas de profissão, ele costumava tratar, até de forma exagerada, por “senhor”.

— Quando eu fui entrevistar o Collor, na verdade, eu queria entrevistar o cunhado do presidente, Marcos Coimbra, que também estava na comitiva e era uma boa pauta. Tinha muito jornalista de fora querendo entrevistar o presidente e eu não havia me preocupado com isso. Mas, como eu consegui furar o cerco e me aproximar dele sem que a segurança percebesse, resolvi fazer a pergunta que a Folha pautara.  Mas, sem querer, na hora do nervosismo, acabou saindo você –, me contou Efrém dias depois, tomando um choppe no Ury’s Bar. A bem da verdade, é necessário dizer que o correspondente só bebia água.

A pergunta desastrosa de Efrém foi oportuna e acabou comprovando o que a Folha já havia publicado dois dias antes. Collor estaria  “nervoso e estressado”. Por isso estava sendo aconselhado a sair de férias.

“GOSTO DE MÚSICA

BAROCA E MISTURO

ROXO COM VERDE”

Para quem escapou de ser padre, ser jornalista para Efrém Ribeiro, que nasceu ali no Piauí, foi “uma coisa mais do destino”. Enganavam-se os que pensavam que o repórter, naqueles conturbados anos 1990,  já tinha muitos anos de estrada. Quyal nada. Apesar de ser, na época, um dos mais solicitados correspondentes da Folha – e um dos maiores caçadores de manchetes —, Efrém estava na profissão  havia apenas dois anos.

Formado em Comunicação Social, Filosofia e Teologia,  ele estava retornando de um curso de mestrado em Filosofia em Turim, quando leu o anúncio da Folha, que estava fazendo concurso para correspondentes. Passou, e já voltou para casa contratado.

Naquele dia em que o presidente encheu a boca  com um palavrão, não se sabe como  Efrém Ribeiro furou o forte esquema de segurança. Era quase impossível o repórter passar despercebido. Suas roupas são exóticas e espalhafatosa.  Na sua passagem por Manaus, já tinha sido  visto misturando uma larga calça amarela com  camisa roxa e gravata verde-abacate. Há três semanas,   tinha sido visto em um comício do então senador  Amazonino Mendes (na campanha para prefeito, nas eleições municipais de 1992), num domingo, em pleno sol de meio-dia, no bairro de Alvorada, trajando impecável blazer de linho marrom, uma calça de xadrez e uma gravata  verde de bolinhas laranjadas. Chegava a  brilhar ao sol.

— A minha vida não é linear. Eu gosto de música barroca, quando gostaria que ela fosse igual a uma música    minimalista, repetindo cada cadência. Mas, na verdade, a minha vida é uma  música tonal…entendeu?  Ela não segue nenhum ritmo linear. Mas esse é só um desejo. Eu só queria ser uma pessoa comum, que não fosse exótica, que não fosse tão atrapalhada. Mas é da minha natureza, não dá para separar isso – me confidenciou, com um suspiro de lamento.

E, ralação às roupas em estilo “cheguei”, o jornalista disse que  elas “não são diferentes”, como eram nos tempos de efervescência da universidade que cursou.

— Lá sim, eu usei trajes de alguns estilos, verdadeira vanguarda. Se comparadas com aquelas, estas até que são bem simplesinhas (risos).

“Se quiser pode

Publicar. Eu nunca

Fiz sexo”

Efrém se define como um jornalista que, por medo de perder a sanidade mental, abandonou a filosofia. Mas o que ele sonhou mesmo foi ser um filósofo e não um jornalista.

— Daria certo em ser filósofo. Mas, no Brasil, não tem esse mercado. Minhas propostas eram um pouco mais ousadas, queria trabalhar com a pornografia, mas com temas contemporâneos.

Para suprir essa necessidade de trabalhar com a velocidade do tempo, foi parar no jornalismo. Hoje se dedica de corpo e alma à profissão de repórter. Só sai de casa para o trabalho. Não vai a bares, boates ou festas de qualquer tipo. Nem mesmo a aniversário de criança.

— Não bebo, não fumo, não cheiro e não faço sexo! –, dispara o rapaz, confundindo as cabeças do repórter e do  fotógrafo.

— Como é que é? Repete isso. Não faz sexo?

— Se quiser pode publicar. Eu nunca fiz sexo na minha vida. E nem sei se isso é ruim ou se é bom. Na verdade, eu nem  sinto falta de outra pessoa.

— Se você nunca fez, como pode dizer que não sente falta de fazer?

— É perigoso. Quando eu ia ser padre, eu conheci alguns deles que nunca haviam feito sexo na vida. Mas depois que foram para a igreja começaram a fazer. E ficaram tão viciados e exageraram.

— E o desejo, ele não existe?

— Na época da adolescência tinha um grupo pop chamado The Smith que fazia até a divulgação disso. O líder dele dizia que não fazia sexo. Eu tinha 14 anos, sentia os impulsos, mas não ia atrás. E fui controlando isso, até ficar adulto.

— E o desejo? –, insisto na pergunta.

— Bom, hoje existe o desejo, mas não há nada depois do desejo. Além disso, Freud, quando escreveu sobre o desejo, disse que ele não vale só para pessoas, vale também para objetos, É possível existir amor aos livros, amor ao trabalho e amor à arte. Entendeu?

— Qual o teu signo?

— Libra. Se tivesse nascido algumas horas a menos eu era Virgem! (risos) Foi em plena saída da adolescência que Efrém viveu a primeira e única paixão de sua vida. Era uma piauiense, como ele que hoje mora em Madri.

— Ela era um tipo magrela como aquela atriz…

— Olivia Palito? (risos)

O caçador do inusitado 

Quem diz é o próprio Efrém  Ribeiro.

— Na verdade, não são das matérias que eu gosto. Eu gosto mesmo é das historinhas!

 Algumas vezes, no jornalismo, surgem histórias irreais, mas não  improváveis. Algumas delas, descobertas pelo repórter, já fazem parte do folclore jornalístico. São várias as histórias de Efrém. Tem, por exemplo, a do concurso de seios no Piaui, uma de um juiz que abssolvia os réus e punia as vítimas. Veja algumas delas:

As formigas assassinas

Em Envira, no interior do Amazonas, Efrem descobriu uma praga de formigas, que deixou o município em Estado de calamidade pública.

 A primeira vítima dos insetos foi um veado criado pelo prefeito. O repórter não pensou duas vezes e mandou bala : “Formigas matam o veadinho do prefeito”.

Teve que sair do município fugido, às 05h da madrugada,  para escapar da fúria do prefeito.

Dança com lobos

Certa vez  seu faro de repórter o levou a fronteira com a Colômbia, onde um tenente do Exército vivia como Kelvin Costner no filme “Dança com Lobos”, isolado no meio dos bichos.

Para cumpri a pauta, veio um fotógrafo de Brasília a quem e Efrém pediu pra fazer a foto. O tenente avisou que primeiro teria que pedir permissão ao Comando Militar da Amazônia (CMA). E pediu, mas o Comando não autorizou. O repórter foi convidado a se retirar.

Na hora de sair do quartel, Efrém seguiu pela porta errada e o tenente foi em seu encalço pedalando numa bicicleta feminina, Cecizinha, de cor rosa. A matéria mudou de enfoque. No lugar no Costner Amazônico, uma tropa de fronteira que não tinha carro e andava de Cecizinha. Foi outro rolo.

Convidado Indiscreto

Efrém foi cobrir, também no Piauí, o caso do envio de dinheiro para o PN pagar cabos eleitorais. Houve reunião na casa do Governador Alberto Silva. Depois de uma hora de conversas “reservadas” onde  os caciques relataram verdadeiros “segredos” de Estado, alguém descobriu que Efrém estava à mesa, ao lado do governador, gravando tudo. Foi um Deus nos acuda! O repórter foi expulso e, para o bem do PRN, obrigado a deixar a fita com a gravação.

Diagnóstico de general 

Certa vez, o general Comandante do CMA chamou o jornalista para, numa conversa amigável, questionar por que ele escrevia tanta “maluquice” no jornal, ridicularizando autoridades e instituições. Depois de meia hora de conversa, dando conselhos e ouvindo explicações, o general chegou à seguinte conclusão.

— Olhe, meu rapaz, eu não sei por que você procede assim. Comunista você não é, porque já mandei levantar a sua ficha e você não é filiado a partido de esquerda; raiva da gente você não tem, porque nos trata a todos com respeito; burro não é, porque tem três cursos superiores e até estudou filosofia. Então, você só pode ser doido. É isso mesmo, você doido!

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