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Cara a cara com o repórter do Post que derrubou o presidente Nixon. E ele falou sobre… pássaros

Fui assistir  “The Post – A Guerra Secreta”, o mais novo drama de Steven Spielberg. Baseado em fatos reais, a trama gira em torno da decisão da publisher Kay Graham, vivida na tela pela estrela de primeira grandeza Meryl Streep, em publicar documentos ultrassecretos, conhecidos como Pentagon Papers, do governo americano sobre a Guerra do Vietnã (1955-1975). Isto é, o Tio Sam estava levando o maior cacete na selva do Vietnã – que se parece muito com a nossa –, mas  e ninguém publicava nada.

Ate que, na primavera de 1971, um calhamaço de papel, um relatório conhecido como Pentagon Papers (Papéis do Pentágono), caiu no colo do editor-executivo Ben Brandlee (Tom Hanks). E aí, de forma corajosa e enfrentando a sisuda Justiça (como é pra ser) norte-americana, a editora-chefe Kay Graham do The Washington Post  resolve publicar a  história. Contra tudo e contra todos, correndo, inclusive, o risco de ser presa. Foi essa coragem editorial, num mundo onde a imprensa é cada vez mais comprometida com os poderes, que fez do Post um grande jornal.

Fora de jornal impresso desde 2016, e me sentindo um peixe for a d’água, fui  às lágrima ao assistir o filme. E algumas situações me remeteram a  fatos históricos que vivi ao lado da jornalista Hermengarda Junqueira na redação do EM TEMPO, nas décadas de 1980-1990. Menga era a Diretora-Executiva de seu jornal e eu o Editor Executivo. Enquanto ela raciocinava com a cautela que os empresários devem ter – afinal, jornal é uma empresa, um negócio que vive de faturamento –, eu era o jornalista incendiário, puro sangue, que queria a verdade, não camuflar nada, arregaçar a manchete e ver o circo pegar fogo. Doesse em quem doesse. E coisa não era bem assim.

Então, toda vez que surgiam história como esta, que iriam, com certeza,  incomodar o  “stabilishman“,  a diretora ficava sem dormir. Conversava muito comigo, me alertava para algumas coisas e, às vezes,  a discussão esquentava. Menga batia na mesa, acendia dois cigarros – apertava um nos dedos e o outro queimava, solitário, no cinzeiro –, mas, no final o sangue de jornalista falava mais alto. “Publica essa porra! E seja o que deus quiser”.

Como eu já disse, o filme The Post me remete a outras histórias, porque logo depois do Pentagon Papersdois repórteres do mesmo Washington Post, tendo como arma apenas uma caneta derrubaram o todo poderoso presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. O caso ficou conhecido como o “escândalo Watergate” e foi  considerado o pior escândalo político dos Estados Unidos da América. Tudo começou com a invasão ao comitê central do Partido Democrata americano em Washington, no dia 17 de junho de 1972. no conjunto de edifícios Watergate.

Em 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post noticiava na primeira página, numa pequena nota,  o assalto do dia anterior à sede do Comitê Nacional Democrata. “Cinco pessoas foram detidas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório Democrata”.

Intrigados com a notícia, dois repórteres do próprio jornal – Bob Woodward e Carl Bernstein – começam a investigar o ocorrido e descobrem que um dos invasores tinha o nome na folha de pagamentos do comitê de reeleição de Nixon,  que era do Partido Republicano e disputava a reeleição. Os repórteres alegavam que recebiam informações de uma fonte que denominaram “garganta profunda”. A fonte também informou que outro assaltante recebera US$ 25 mil pelo comitê. Mais tarde foi descoberto que o informante pertencia ao alto escalão do FBI, a polícia federal norte-americana. A identidade secreta de “garganta profunda”, na verdade Willian Mark Felt só foi divulgada em 2005. Ele era presidente do FBI quando o caso ocorreu.

As matérias divulgadas pelo Washingon Post apontavam que Nixon mandara invadir a sede do comitê nacional do Partido Democrata, o adversário de campanha. Ou seja, os homens presos não estavam assaltando o banco, mas eram espiões. Estavam, na verdade, instalando escutas e equipamentos fotográficos nos prédios onde circulavam os inimigos políticos do Presidente.

As matérias do Post fizeram estremecer as bases do governo Nixon que via vazar entre os dedos o seu grande sonho de presidente do mais poderosos país do mundo. A coisa se complica ainda mais quando, em depoimento ao Senado, o advogado da Casa Branca assume que há um esquema de espionagem. Gravações de telefonemas que passavam pelo Salão Oval – escritório oficial do presidente – comprovam que Nixon comandava o esquema.  Dois assessores e quatro integrantes da equipe presidencial são condenados. O jornal encurrala Nixon. O impeachment é questão de tempo. Em 8 de agosto, o presidente renuncia num discurso dramático, na  TV. Em uma rara admissão de erro, o presidente diz:

— Lamento profundamente qualquer tipo de dano…

Nxon foi o primeiro e até hoje o único presidente dos EUA a sofrer um impeachment.

Nessa época ainda, eu ainda não tinha entrada na faculdade de jornalismo, mas acompanhei o escândalo Watergate passo-a-passo porque também queria o fígado de Nixon, afinal, ele era o símbolo do massacre de milhões de jovens na guerra do Vietnã.

Corta para Manaus, 1981, jornal  A Crítica. Numa tarde abafada de setembro,  o repórter Cláudio Barbosa entra esbaforido na redação, arrastando sua bolsa tiracolo de couro. Depois de enxugar o suor da testa com uma lauda de papel jornal, se dirige à minha mesa, onde eu editava duas páginas de Internacional, e convida:

— Magrão, vamos comigo lá no Tropical. Se tudo der certo, a gente vai dar o maior furo da história desse jornal!

— Tropical, hospital? – perguntei.

— Não, bicho, Tropical hotel!

— E o que tem lá?

— Vamos entrevistar um cara que nem eu acredito que está aqui em Manaus. Mas uma fonte me confirmou que está

— Quem é? Porra, Cláudio, deixa de segredo. Diz logo quem é?

— Agora não, pode vazar. No caminho eu te conto. Vamos?

Claudão sempre foi meio amazonense, meio mineiro. E por isso mesmo meio desconfiado. Mas acreditei no barbudo e fui. No carro ele me deu o susto:

— Sabe aquele repórter do Washington Post que derrubou o Nixon? Pois é, ele está aqui em Manaus!

—  O que é isso, ficou maluco?

— Tô falando sério, magrão. Se der sorte a gente acha o cara.

— Eram dois os  repórteres do Post no caso Watergate. Qual deles está aqui? –, questionei.

— Não sei direito. Mas acho que é o  Robert Redford – respondeu meu amigo, referindo-se ao filme Todos os Homens do Presidente, vivido nas telas por Dustin Hoffman e Robert Redford.

Na portaria do hotel, decidimos que entraríamos de sola, porque na maioria das vezes esses caras famosos pedem para não serem incomodados. Como não sabíamos quem estava em Manaus, perguntamos pelos dois jornalistas.

— Boa tarde, nós somos do jornal A Crítica e gostaríamos de falar com Bob Woodward ou Carl Bernstein. Eles estão aí?

A moça consultou a lista de hóspedes e pegou o interfone.

— Here at the hotel there are two newspapers wanting to talk to the man.

E depois que desligou nos disse.

— Aqui só está hospedado um deles. Aguardem, ele está vindo.

Me veio um frio na barriga quando um branquelo de bermudas, camiseta e tênis veio descendo a escada. Na hora cutuquei o Cláudio.

— Você tava errado Cláudão. Não é o Redford, é o Dustin Hoffman. Esse aí é o Carl Bernstein. O Redford fez o Bob Woodward.

Diferente do que pensávamos, o Bernstain era a maior simpatia. Estendeu a mão sorrindo e foi logo dizendo

Hello. I am at your disposal. Let’s talk?

De cara pedimos Socorro à intérprete do Tropical Hotel Manaus e fizemos uma entrevista de aproximadamente 30 minutos. O suficiente para o homem que derrubou Nixon dizer que, com a fama, havia largado o Post e agora vivia de free lancer, onde faturava com uma reportagem o que antes não ganhava em um ano. O motivo de sua viagem a Manaus era uma pauta que encantava os Americanos: os pássaros da Amazônia. Sobre o Watergate? Bom, Bernstain não quis falar muito. Mas observou que o bom jornalismo provou ao mundo que os políticos não podem tudo. Nem mesmo o presidente dos Estados Unidos.

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