BLOG DO MÁRIO ADOLFO
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Amazônia está chorando, morreu Emerson Maia, o poeta da flores, dos peixes e dos rios


O Amazonas perdeu nesta sexta-feira, 14 de agosto,  seu maior compositor de toadas, Emerson Maia, morto ao 66 anos num leito de um hospital de Manaus onde estava internado desde o dia 24 de junho lutando bravamente contra uma cirrose hepática. Parintins perdeu um de seus filhos mais queridos, que desde o final dos anos 1960 dava um toque de poesia e tributo à natureza, escrevendo canções imortais como “Lamento de Raça”, toada obrigatória em todas as apresentações do boi bumbá Garantido, deu boi do coração.

Emerson era um índio gigante, com quase 2 metros de altura e mãos enormes. Mas não um índio com traços amazônico, tinha cara de Sioux ou Apache. Era um homem generoso, mas sabia ser duro e mal humorado, quando algo o incomodava. Ultimamente andava muito triste e decepcionado coma a festa do boi de Parintins, tradição que aprendeu a amar ao lado dos pais quando ainda era pequenino.

— O boi virou um negócio que rende milhões, mas perdeu a alma de seu povo. Me diga, você conhece algum parintinense humilde, caboclo, que ainda assiste ao boi. Ele nem entra na arena, porque não tem dinheiro... – questionou certa vez.

Essa ligação de Emerson com o Garantido começou na infância, quando acompanhava o pai ao curral do bumbá. Essas lembranças foram registradas em uma toada de 1972, a primeira que ouvi (em 1984) quando visitei Parintins pela primeira vez : “Sentei junto ao pé da roseira/ Lembrei minha infância/ fogueira e balões/ Lembrei de meu pai, meu amigo/ Esperando ansioso/ o meu boi Garantido”.

Em 2016, realizei uma das dezenas de viagens que fiz a Parintins e, por obra do empresário Zezinho Faria, realizamos um passeio  no barco de Emerson Maia à localidade de “Zé-Açú”. Foi um presente dos Deuses. Enquanto o cenário de águas e floresta deslizavam nos meus olhos, sob uma luz intensa de sol e céu azul, o poeta ia deslizando suas todas dedilhando o violão. “Eu sou um índio/ sou um índio guerreiro/ sou também feiticeiro/ mas não quero guerra/ quero a paz na terra/ a selva pra caçar e o rio pescar”, cantava na toada ‘’Indio”,  para se apresentar a quem não conhecia e se aproximava de seu mundo. O chega pra lá aos invasores, que soava como um  “epa, você está pisando em meu território!”, vinha em versos contundentes logo a seguir: “Eu sou um índio/ pense nisso seu branco/ já tiraste o encanto/ o esplendor da floresta/ quase nada me resta/ eu só quero viver/vê meu filho crescer/ Me deixe em paz seu moço/ ou eu fico louco/ respeite os limites pra  manter minha Nação/não preciso do seu saber/ porque isso me faz sofrer/ eu já tenho a beleza da mãe natureza/ pra sobreviver...”

No final de cada toada, cantada com o olhar perdido no horizonte, observei algumas lágrimas inundando os olhos do poeta.  Emerson não tinha muitos parceiros musicais. Sua única parceria de fato era com o rio, árvores e bichos. Antes que o as queimadas começassem a transformar a Amazônia no “inferno de Dante” que é hoje, Emerson, percebeu que tinha por obrigação de alertar o planeta para o que estava vindo por aí. E, no final dos anos 1990,  escreveu “Lamento de Raça” para dizer isso: “O índio chorou./ o branco chorou/ Todo mundo tá chorando/ Amazônia está queimando/ Ai, ai que dor/ Ai, ai que horror...” No verso mais comovente, Maia lamentava que “virou deserto, o meu torrão/ meu rio seco/ pra onde vou...”

Saindo do protesto, quando rasgava seu coração de guerreiro parintintin, Emerson Maia também sabia ser doce, como um meninão, puro,  brincando de boi no meio de sua gente. Esse sentimento é visível na toada “Flor de Tucumã”, que diz assim em um de seus trechos: De longe muito longe eu venho  pra te ver/ É triste o ano inteiro longe de você/ te amo meu boizinho flor de tucumã/ assim todo branquinho é meu talismã...”

Como disse o jornalista Floriano Lins, em entrevista ao BMA, Emerson  denunciou, em suas obras,  as violências contra a Amazônia e, ao mesmo tempo, trouxe anúncios poéticos de preservação e cuidados relativos a todas as vidas que habitam nosso solo caboco.

— Uma certeza a gente tem: a Amazônia está chorando a partida de um de seus maiores poetas e compositores. Leão, como o chamávamos carinhosamente, deita para o seu sono eterno, na certeza de que seu legado, em versos, prosas e canções, ficará incrustado nas entranhas da cultura amazônica. Deitado ao pé da roseira, nos deixa a saudade de tempos que não voltam jamais...

No tristonho e lúgubre mundo da pandemia, é doloroso acordar e perceber que a velha ilha tupinambarana vai estar mais triste sem o seu poeta. Que não era só um, eram vários. Essa pluralidade ficou documentada no texto sensível da publicitária Liduína Mendes, na apresentação do CD “Meu Mundo Verde”, uma coletânea das todas imortais do compositor. “Emerson Maia tomou para si a difícil tarefa de ser vários para poder ser só um.  Foi peixe, flor, índio e caboclo rei. Foi terra e vento, para criar raízes ao mesmo tempo que voa livre”. Então, voa poeta. Rios, florestas e céus agora são seus.

Mário Adolfo

Mário Adolfo

Jornalista formado pela UA, com mais de 40 anos de experiência. Dois prêmios Esso e criador do personagem Curumim, o Último herói da Amazônia.