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A revolução do tucupi de Darcy Ribeiro

‘Por que o Brasil deu no que deu?’ Os que estavam em busca de respostas foram ouvir a pregação de Darcy Ribeiro naquele distante setembro de 1989. Eu fui um deles, pautado cobrir a passagem do senador do PDT, ex-ministro de João Goulart, ex-vice-governador do Rio de Janeiro e herói da resistência contra o golpe militar de 1964, quando reitor da Universidade de Brasília (UnB).  Espécie de Sancho Pança de um quixotesco Leonel Brizola, Darcy era daqueles que iluminava a sala quando falava.

Ele viera a Manaus pra presidir o Fórum Nacional de Debates dos Problemas Brasileiros. A partir do primeiro minuto que pisou no solo amazônico, o antropólogo, escritor e político brasileiro deitou sua falação, que começou pelo aeroporto Eduardo Gomes, passou pela República Livre do ICHL e encerrou na noite  de quinta-feira na sede da OAB/AM.

Fundador da UnB,  Darcy chegou logo metendo o dedo na ferida, ao dizer que nunca poderia imaginar que os caboclos da Amazônia pudessem ficar mais pobres do que já eram. Assim como as multinacionais jamais imaginariam que iriam ganhar tanto dinheiro.

— Tudo isso foi resultado de uma política  imposta pelo governo norte-americano após o golpe militar –, disse, para logo em seguida ir buscar na história dados que comprovam sua afirmativa.

— Eu posso dar um número expressivo. Eu era o chefe  da Casa Civil do Jango e coordenador da campanha  das reforma de base, isto em 1962. Naquele ano, o salário mínimo era de 127 dólares. Hoje, com o reajuste, não ultrapassa 83 dólares. E olha que a preocupação de Jango era dobrar esse salário.

Darcy falava da Amazônia com muita autoridade. Foi ele que, ao lado do professor Arthur César Ferreira Reis – que viria a se tonar o primeiro governador do Amazonas no regime militar –, elaborou o projeto da Superintendência da Valorização Econômica da Amazônia (SPEVEA), mais tarde substituída pela SUDAM. Por isso alimentava a fé de que um dia a Amazônia iria se libertar e mostrar o seu potencial.  Mas, para ele, primeiro o mundo teria que curvar–se frente aos seus valores. E no dia em que isso acontecesse, explodiria no próximo século o que ele chamava  de… “a revolução do tucupi!”.

A Amazônia não pode continuar a der tratada  da forma como foi tratada até agora – dizia Darcy –, cercada de órgãos federais repetitivos e infestada de burocracia que sugam a maior parte de seus recursos. Seus projetos não devem preocupar-se em derrubar a mata, transformar a terra num deserto e assentar gado. Deve também passar  pelo benefício do homem da Amazônia.

Esse alerta foi feito naquele dia pelo antropólogo Darcy Ribeiro que, numa razante por Manaus, derramou sobre nós um pouco de sua maravilhosa loucura e de sua incrível lucidez. Com passagens pelo Ministério de João Goulart, batidas de frente  com os militares, longos anos no exílio e uma assessoria no governo do presidente Salvado Allende (antes do sangrento golpe), no Chile, Darcy retornou de forma triunfal , quando raiou o sol da democracia no Brasil,  eleito vice-governador  de Leonel de Moura Brizola (PDT), na primeira eleição direta para governador do  Rio de Janeiro. Darcy tinha muito a nos ensinar do alto de sua vasta cabeleira lisa e branca, sobrancelhas grossas e rosto fortemente marcado por traços  indígenas.  Com Darcy de escudeiro, este país seria outro se Brizola tivesse sido eleito presidente em 1989, quando os brasileiros entregaram o país a Fernando Collor. Deu no que deu…

Naquela época, Darcy já dizia que a Amazônia só ia poder ser resolvida via ministério. Um Ministério da Amazônia que coordenasse seus recursos  em benefício do homem.

— O fato é que o Brasil não pode abandonar a Amazônia, porque o Brasil precisa da Amazônia. A questão básica está no fato de que não existe nada de concreto que possa prender o homem da Amazônia ao seu  habitat. As populações  que incham cidades como Belém e Manaus, foram expulsas de onde estavam, pois hoje os projetos na região tentam implantar sistemas que são considerados “progressistas”, mas que de progressistas não têm nada, pois destroem o habitat, o modo de vida dos povos da Amazônia.

Vejam só, Darcy nos disse isso em 1989. Não mudou muita coisa, mestre!

Ele também alertava  que há na Amazônia uma especialização do povo que é o de viver nos trópicos. E isso, para ele,  é a coisa mais preciosa que poderia existir, já que essas populações herdaram dos índios formas de adaptação à região que nunca poderão ser inventadas.

Quer dizer, há 29 anos, o antropólogo já observava que as formas de sobrevivência dos povos da Amazônia não vinham sendo defendidas (como não vêm até hoje)  e os modelos de desenvolvimento aqui implantados não valorizam a cultura regional, outra herança indígena. O antropólogo chegou a fazer naquela palestra em Manaus,  uma  comparação da região com certas áreas rurais de Paris.

— Toda vez que eu passo por Belém e por Manaus, aqui pela região, eu faço uma comparação com Paris. Em Paris você pode comprar 300 tipos de queijo de cabra. Isso quer dizer que são milhares de queijos sendo  produzidos. Isso significa, também, que são famílias criando cabras e produzindo queijos de cabras diferentes. Assim como o queijo de cabra, produzem várias coisas chamadas exóticas. Ou coisas especiais que facilitam a vida. Aqui na Amazônia vamos encontrar uma quantidade enorme de frutas como o cupuaçu, açaí, bacuri, que a população sabe usar, mas que não dão oportunidade para ela explorar esse potencial.

Sempre depositando esperança no potencial do povo brasileiro, Darcy acreditava que ia chegar o dia em que o mundo iria descobrir o tucupí. E quando isso acontecesse, iria explodir uma revolução no próximo século, porque vão descobrir que o tucupi é uma coisa mais forte até que o vinagre.

— Com um detalhe: é uma base que pode ser bebida até mesmo por uma pessoa que sofre de úlcera… Então, são coisas fantásticas que existem aqui e não são valorizadas.

Darcy citou como exemplo a  questão da criação de peixes amazônicos no sul maravilha, informando que, já  naquela época estava havendo uma verdadeira invasão de criação de tucunarés e de pacús  lá fora. E questionou:

— Então, por que não criar tucunaré aqui? Por que São Paulo vai brincar de criar jacaré? Jacaré e tucunaré podem permitir que milhões de pessoas se instalem às margens desses lagos e produzam peixes para o mundo inteiro..

Com isso, Darcy Ribeiro voltava suas críticas ao modo de ocupação da Amazônia, já que não havia (e talvez não haja até hoje) projetos amazônicos para amazônidas, Projetos que permitissem preservar as condições de vida dos povos da região. Coordenador da campanha de Brizola Presidente, Darcy disse que essa era a proposta do candidato do PDT, quando ele falava na criação de um Ministério da Amazônia, que trataria de todas essas questões.

Darcy nos disse naquela palestra inesquecível, que vinha acompanhando, nas viagens que fazia ao exterior, o movimento internacional de defesa da Amazônia e da preservação de sua floresta.   Disse aceitar e até aplaudir o movimento, mas com “um olhar crítico”, pois acreditava que ninguém melhor que o brasileiro para defender o que é seu.

— O importante é o seguinte: É muito boa a campanha mundial contra a espoliação da Amazônia. Eu apoio essa campanha. Mas eu ando pelo mundo todo e não deixo de passar o pito. Eu digo logo para eles: “Isso tudo é muito bom, mas não me venham com atitudes colonialistas. Não venham querer meter a pata aqui! Ninguém tem autoridade no mundo para dizer que sabe preservar uma floresta. Os europeu acabaram  com sua floresta mediterrânea. Os norte-americanos acabaram com a floresta deles. Não há floresta  preservada em lugar nenhum do mundo. Não há nação indígena preservada em ugar nenhum do mundo. Vocês caçaram seus índios todos de forma por do eu a nossa! –,rechaçava, furioso, o antropólogo.

Para ele, aqueles que hoje atiram pedras, não têm lição nenhuma a dar.

— Quem tem mais capacidade de cuidar da Amazônia somo nós mesmos e não há nem hipótese de nós abrimos mão disso! -, disse, observando que ao menos duas coisas precisavam ser reparadas de imediato, já naquele final dos ano 1980: Haviam erros no modo de ocupação da Amazônia que era e é destrutivo; e o modo de entrada do capitalismo, que foi contra o povo da Amazônia, destruindo a sua sabedoria milenar, que é importantíssima e precisaria de toda a atenção para ser preservada.

— O modelo da Amazônia é como o próprio modelo de administrativo do Brasil. Que foi organizado para enriquecer os ricos e empobrecer os pobres. E, realmente, essa é uma situação dramática que temos que enfrentar com seriedade! –, alertou o grande Darcy. Mas eles não ouviram. E deu no que deu…

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