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O dia em que o “coisa ruim” baixou na redação do Em Tempo

Sempre que chegava a época de réveillon, Copa do Mundo ou festas juninas, o assunto estava na pauta. Um editor olhando por cima dos óculos entregava o papel recortando com quatro ou cinco linhas teclados na velha Remington, com uma cópia em carbono, pra ele no outro dia ter uma  prova para cobrar o repórter que furava a pauta. Era o sinal pro repórter reunir a equipe e correr pro lugar de onde um repórter  ele nunca deveria sair: a rua.

— Vamos ouvir donos de fogueterias, sondar os preços dos fogos e pedir orientação do comerciante para que crianças não brinquem com foguetes perigosos –. Desculpem  trocadilho, mas era uma “pauta bombástica”.

A pauta do dia parecia muito com a do ano passado. Naquele ano de 1988, no Em Tempo, meu editor Mário Monteiro que também olhava pro cima das lentes e ainda deixava uma caneta Bic pendurada na boca, me deu a velha e cansada pauta, na véspera de São João.

— Vamos lá ouvir os donos de fogueterias e…  bla, bla, bla!…

Peguei a lauda com a “pauta inédita”, chamei o fotógrafo Jorge Cúrcio e o motoristas Arquimedes, que, do alto de seu 1,46 m, adorava um papoco de foguete. Até o dia em que um catolé estourou debaixo do banco em que ele estava sentado e o arremessou a mais de dois metros de altura.

A fogueteria “Nova Esperança” ficava na rua Tefé, bairro de Cachoeirinha. Pertencia a um velho amigo de família, Thiago dos Prazeres, um pernambucano arretado que escolheu o Amazonas como Pátria e aqui ficou até seus últimos dias, onde fez uma legião de amigos.

“Se é pra divulgar a venda de foguetes, que seja com a fogueteria Nova Esperança. Ao  menos é do meu amigo”, pensei em voz alta.
Já tinha feito essa matéria umas dez vezes, e até sabia de cor e salteado as respostas do seu Thiago.

Mas o encontro com o seu Thiago sempre era uma festa. “Qualquer dia vamos nos reunir pra tomar uma pinguinha. Tem uma de Recife braba, mas das boas”, convidava. “E como vai a Magnólia? (minha sogra), e a Tekinha?  (minha mulher), o Serginho (Sérgio Figueiredo, meu cunhado). Pra começar a entrevista tinha que queimar todas as etapas simpáticas do velho amigo.

Nesse dia, seu Thiago explicou tudo. Quantos segundos levava cada foguete, quanto custava montar um show pirotécnico e advertiu sobre os cuidados com as crianças manuseando foguetes de adultos.

— Você Arquimedes, que é baixinho deve soltar somente peido de velha –,  aconselhou seu Thiago referindo-se ao nome popular dos Estalos de Salão.

Terminada a pauta, tomamos rapidamente o guaraná Magistral que seu Thiago nos servia sempre e corremos para a redação. Eram quase 18h.

Fui chegando e tacando pau na máquina. Jorge Cúrcio correu para o laboratório. Naquela época não havia foto digital. O  filme em película era levado para o laboratório, a laboratorista fazia um copião que era levado ao editor. Este, com a ponta da caneta, marcava as fotos mais interessantes para a publicação e o copião era novamente devolvido ao laboratório, para serem reveladas somente as fotos que interessavam.

Estava lá mergulhado nas resposta de seu Thiago, quando Jorge Cúrcio entrou quase correndo na redação com uma fotografia na mão, ainda molhada pelo fixador. Estava branco, lívido, lábios roxos, suava frio e quase não conseguia falar. Correu direto pra mesa do Mário Monteiro:

— Che-che-che-chefe… tem…tem… tem uma entidade aqui na-na-na  fofó-fofó-fofó-fotografia!

— Que merda é essa Cúrcio? – espantou-se Mário Monteiro ao deparar com a imagem.
Quando conseguimos entender o que o Cúrcio  gaguejava, o fotógrafo explicou:

— Monteiro, eu juro, não tinha ninguém nesse balcão quando eu fiz a foto. Somente o proprietário. E olha só o que aparece por trás do entrevistado.

Todo mundo da redação se aproximou em volta da mesa do editor para olhar a fotografia e tentar entender que parafernália era aquela que estava atrasando o fechamento da edição. E estava lá, manuseando uma “lágrima de Nossa Senhora” – um tipo de foguete-estrelinha próprio para crianças –, o seu Thiago dando a entrevista no balcão. Mas tinha um detalhe: por trás, do fogueteiro, a imagem de  um menino negro, com os olhos quase em diagonal, orelhas pontudas, aparentemente nu da cintura pra cima e com um sorriso diabólico  que mostrava dentes afiados. Teve neguinho que, que deparar com a imagem,  se benzeu e eriçou os pelos do braço:

— Valei-me minha mãe santíssima! Só pode ser coisa do outro mundo! -, reagiu a laboratorista Neide.

— Isso aqui, meu velho, é o chupa cabra. Ele anda atacando muita gente lá pras bandas de Iranduba – deduziu Luiz Octávio, editor de polícia.

— Porra nenhuma, se não for o Sacy eu aposto! – arriscou Jacira Oliveira.

—Pomba-gira, meu caro, disfarçado de menino pra tentar quem vende foguete perigoso!–, analisou Flávio Seabra.  
— Que nada. É um duende que adora brincar com fogo e sempre se entoca em paiol de pólvora –, palpitou o diagramador Buzzaglo.

Mário Monteiro sempre foi um jornalista sensato e coerente,  que conseguia equilibrar o calor das emoções de uma redação com a frieza da razão. Tentando acalmar os ânimos  aconselhou:

— Vamos com calma, gente. Devagar com o andor que o santo é de barro.
E olhando pra mim,  por cima das lentes perguntou:

— Mário Adolfo, você que estava lá, essa entidade ou seja lá o que for, estava no balcão ou não?

— Olha Mário, eu estava de cabeça baixa anotando o que seu Thiago falava. Mas, nas vezes que levantei a cabeça, não ví pretinho nenhum por lá.

A editora de Cultura, Mônica Maia, sempre mística, se aproximou acendendo um cigarro Free, pegou a foto, contemplou sob um silêncio ensurdecedor, franziu o semblante e foi taxativa:

— Então, os senhores não sabem o que é isso? – perguntou, olhando na cara de um por um. Suspense total. Aí Mônica deu uma tragada, suspirou fundo e aumentou o volume da voz:
— Isso é Exú, cambada de incompetentes. É Exú! E podem mandar amentar a tiragem do jornal que isso é um sinal!

Naquela época, início do jornal, tudo o que eu queria  era ver a tiragem do EM TEMPO aumentada. Por isso saltei lá do meu canto:— Isso! Vamos arregaçar essa foto na capa, da cabeça ao rodapé e aumentar a tiragem. “Foguete é coisa do capeta – Exú ameaça explodir fogueteria”, Manchetaço. Vai vender tudo! – disse eu, exagerando na sugestão de título da matéria.

E de novo o Mário Monteiro, no freio de mão:
— Segura a onda, rapaziada. Vamos ligar pro Marcílio (Junqueira, o diretor presidente do jornal) e consultar se a gente pode aumentar a tiragem.

É claro que o Marcílio, como bom mineiro, mais desconfiado do que que Noé quando viu um casal de cupins entrar na Arca, vetou o aumento da tiragem.

— Vocês estão todos malucos. O que assegura que a imagem de uma coisa que nem vocês sabem o que é, quanto mais o leitor, vai esgotar a venda do jornal?

Naquela noite, eu e Maro Monteiro fomos ao bar do Armando para descarregar o estresse e a  energia que a estranha imagem nos causara.
— Bicho, eu estou impressionado até agora. Tem algo de sagrado ou de profano  por trás daquela foto –, desabafou Mário Monteiro, fazendo o sinal da cruz, batendo na madeira três vezes e  entornando a primeira Antarctica da noite.

Depois de uma madrugada de insônia, vendo nos meus sonhos Exú, Sacy, duende e o escambou, cheguei na redação por volta das 14h. Pouco depois o Marcílio chegou. Abriu a porta da redação e determinou à mulher dele, a diretora Executiva, jornalista Hermengarda Junqueira: — Mengarda, manda o Mário Adolfo e o Jorge Cúrcio descerem que estou esperando eles no carro. Descemos achando que já estávamos demitidos. E trememos nas bases quando  Marcílio girou a chave do o Monza e disse:
— Agora vamos lá na fogueteria tirar essa maluquice a limpo.

Chegando lá na Nova Esperança, com eu e Cúrcio de olhos arregalados sobre o mesmo balcão da fogueteria, o palco da entrevista mal assombrada, Marcílio puxou a foto de dentro de um envelope e chamou seu Thiago na responsa:
— Desculpe, seu Thiago, mas estou aqui porque essa foto causou o maior fuzuê lá no meu jornal. O senhor pode explicar que loucura é essa?

Seo Thiago ficou vermelho, olhou pra trás esbravejou:

— Vem cá seu moleque irresponsável!
E aí apareceu um negrinho afastando a cortina da porta dos fundos, com a cara mais lambida do mundo.

— Esse moleque estava trabalhando sem camisa. Quando os jornalistas chegaram mandei ele sair de cena e ele se meteu pra baixo do balcão, mas, no exato momento da foto ele levantou. Com o movimento, a imagem desfocou e ele saiu todo distorcido, a cara do capeta! Me desculpe, Dr. Marcílio. Vai já lá pra dentro seu pestinha!

Entramos no carro e voltamos pra redação. Sem dar uma palavra.

No mesmo dia mandamos a foto pro arquivo morto e nunca mais tocamos no assunto. E Jorge Cúrcio, de forma sensata, achou por bem  apagar as sete velas pretas que tinha acendido dentro do laboratório do jornal. Antes que elas provocassem um incêndio.

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